Palavras que Rasgam


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18/08/2006 20:30

Se Fôssemos Infinitos

Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.

Bertold Brecht


enviada por alba N.



10/07/2006 09:15

Pessoa... Sempre, meu Poeta

(...) Vi todas as coisas, maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse,
Amei e odiei como toda a gente, Mas para toda a gente isso foi normal e institivo. E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
(...)"
Álvaro de Campos
em Passagem das Horas



enviada por alba N.



25/06/2006 06:17
"Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida."

Álvaro de Campos

enviada por alba N.



17/06/2006 21:36
Deus meus, ut quid me reliquisti

sciens me non esse Deum

sciens me esse fragilem.

Carlos Drummond, in Poema de Sete faces


enviada por alba N.



05/06/2006 21:24
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
enviada por alba N.



27/05/2006 14:08

Smiths

" Apenas diga-me, quanto tempo
Antes do último?
E diga-me quanto tempo
Antes da pessoa certa?" -



(Last Night I Dreamt That Somebody Love Me)
enviada por alba N.



27/05/2006 14:00

Amor

Desalento entre instantes de sorrir.
Espinho moderado na garganta que esfola mas não mata. Gato com rato na boca (já viu?), parece que brinca com a vítima, mas olhando bem é tortura que aprisiona, solta, empurra, traz para si, afasta, morde, mastiga, sopra descansa, olha de novo, pega tritura e enfim dá o suspiro com olhos virados para o céu e misericórdia de deuses desconhecidos, a patada final que apaga a última estrela de diamante que brilhava no olhar do rato agora purificado.
O gato era quem o rato amava e não sabia, em sua pureza dos que mal nasceram, mal desonfiando que ele, o rato, era a presa; e o gato, na essência natural das leis que regem a natureza, o predador.
Descansa agora o gato, deitado em almofadas de ceitim, lambendo os pêlos, esperando a próxima entrada.
O rato perdido entre cometas suicidas e densas florestas de musgo e magnólias descoloridas, ainda sofre e chora a perda do amor.

albanegromonte
enviada por alba N.



19/05/2006 03:42

Alejandra

um olhar desde o esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolta consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos


Alejandra Pizarnik




enviada por alba N.



15/05/2006 18:56

Sobre os tempos

[...)
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
[...]

Carlos Drummond de Andrade, Nosso Tempo

enviada por alba N.



10/05/2006 22:48

Roubei de um Anjo

"El único error de Dios fue no haber dotado al hombre de dos vidas: una para ensayar y otra para actuar."

Vittorio Gassman


enviada por alba N.



10/05/2006 22:26

perguntinha básica

"Que te importa se te amo?"
Goethe




enviada por alba N.



29/04/2006 22:08

Atirador de Facas



Arrancar as vendas
e acompanhar,
de olhos abertos,
a trajetória do punhal,
cravado em nosso corpo, em nosso peito,
a cada amor desfeito.

Leila Miccolis
enviada por alba N.



29/04/2006 21:07

Lusitana poética


Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
Mas podes arder. Para a tua temperatura sou mercúrio,
linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas
e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da
devolução.

Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a
medida exacta do meu desejo.

Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma
enorme quantidade de calor. Tocas-me?

Vasco Gato




Vasco Gato (1978) é um dos poetas da vaga dos anos noventa que se está a impôr na moderna literatura portuguesa com um assinalável ritmo de publicações. Revelado com «Um Mover de Mão» (Assírio & Alvim, 2000), edita «Imo» em 2003 nas Edições quasi
e, de seguida, ainda no mesmo ano, «Lucifer» (Ed. Alexandria). Entretanto integrou a antologia da nova poesia portuguesa «Anos 90 e Agora» (Org. Jorge Reis-Sá, quasi, 2001) e traduziu a obra «Noites de Atropelo» de Mark Kozelek (edições quasi, 2002).



enviada por alba N.



29/04/2006 20:40

Poesia in Rock

"Quando a poeira assentar,
Olhe bem, não estarei mais lá

Sempre em ação, solidão, adeus

Já estamos de saída
deu pra perceber?
Se eu tivesse uma outra vida
traria você"

Plebe Rude
enviada por alba N.



29/04/2006 11:26

Fernando Pessoa

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente ;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada --
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos, 1934.


enviada por alba N.



15/04/2006 22:18

Pirandello

Então para os outros sou aquele estranho que surpreendi no espelho: sou ele e não eu, tal como me conheço! Sou aquele estranho que, à primeira vista, não reconheci. Aquele estranho que não posso ver viver a não ser assim, num instante inesperado. Um estranho que só os outros podem ver e conhecer.

Luigi Pirandello
enviada por alba N.



15/04/2006 11:01

Samuel

Eu sou a vaca que, diante dos portões do abatedouro, compreende todo o absurdo das pastagens. Seria melhor ter pensado nisso mais cedo, lá, quando estava no pasto verde e tenro. Tanto faz. A ela resta ainda atravessar o pátio. Isto, ninguém pode tirar dela.



Samuel Beckett, Eleutheria, 1947



enviada por alba N.



11/04/2006 03:22

Hoje....

a palavra rasgada foi superada em dor, pelo pranto de alguém muito querido.
hoje aqui, só se rasgou um coração.
...
Luz para você, que se sabe em mim.
enviada por alba N.



04/04/2006 15:35

Imagens



Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.

Ana Luísa Amaral






enviada por alba N.



02/04/2006 01:14

Pagu

Um Peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.

Patrícia Galvão
enviada por alba N.



02/04/2006 00:06

Dúvida



Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver de seu dono.

Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?

José Paulo Paes
enviada por alba N.



02/04/2006 00:04

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.

Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,

a graça de um estado.

Semente.

Muito mais que raízes.

Adelia Prado



ph Evandro Teixeira
enviada por alba N.



01/04/2006 23:56

Epigrama 18

Quando nada, absolutamente nada, sai
Eu saio para dar uma volta.
Vou à floresta à procura de chapeuzinho, da vovó ou do lobo.
Na ânsia de ver pessoas
vou a bares requintados e a botecos mal-cheirosos.
Passo na biblioteca e ponho o nariz em Bandeira.
Depois de várias cervejas
e um colóquio interminável de asneiras.
O que mais desejas?
Ser uma ema?
Para sem pena enfiar a cabeça num buraco?

Torquato Neto
enviada por alba N.



01/04/2006 21:44

Hilda Hilst

XII

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

De Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
enviada por alba N.



01/04/2006 21:43

Demais

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e Beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.

Manoel de Barros
enviada por alba N.






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